Cabeçalho

 

Alcebíades

por Asher G. Brum Pereira

 

Intensa agonia e malévolo terror são os sentimentos que corroem meu espírito no passar dos dias, desde a escura noite de 1848. Ainda, estes sentimentos agourentos, que precedem a morte, me deturpam os sentidos ao escrever estas linhas. Manchar estas páginas com minha história não vai mudar o passado que me tortura, mas vai, sim, deixar registro de acontecimentos que me aterrorizam e pelos quais prestarei contas no inferno, assim que escrever aqui as últimas palavras que desejo. Tenho lucidez para saber que não estou louco. Não sonho. O que aqui direi agora é a mais pura expressão da verdade.

A minha pretensão aqui é relatar, de modo sucinto, uma série de acontecimentos circundantes de minha vida universitária. O desenrolar de tais acontecimentos impingiram-me desprezo tão grande por minha própria vida, que dela abdico, deixando o mundo privado de minha ignóbil existência.

Desde a infância, tornara-se patente a vilania de meu caráter. O egoísmo de meu espírito era tão evidente, que só atraía companheiros como eu. No entanto, em contraste, nunca fui um traidor, e sempre quis muito bem a todos os meus amigos. Com os anos, diminuiu-se meu grupo, na medida em que meu egoísmo e falta de caráter aumentavam. E, além disso, os amigos que vinham a mim eram os que mais se pareciam comigo: mesquinhos e arrogantes, mas, muito parecidos comigo. Dávamo-nos muito bem.

Cresci. E ainda muito jovem entrei para a vida universitária, em São Paulo. Era bom estudante e cumpria com meus deveres. Mas, durante a noite, freqüentava reuniões nos quartos de meus colegas, para fumar ópio e passar a noite em esbórnia. Foi em uma destas reuniões que conheci Flávio. Vi nele, e ele em mim, ótimo companheiro, e depois daquele dia passamos a andar sempre juntos, quer fosse na sala de aula, quer fosse em nossas reuniões secretas, ou fosse vagando sem rumo pelos corredores da universidade.
Flávio era o tipo de sujeito galanteador, e adorava contar vantagem. Por sua prepotência, vivia arranjando desavenças e mais de uma vez tive que acobertá-lo, para que não se envolvesse em problemas graves.

Aconteceu que, de certa feita, estávamos na biblioteca, quando se aproximou um jovem de nossa mesa. Era um tipo muito estranho, e notei a jocosidade malévola, que tão bem eu conhecia, brotar dos olhos de meu amigo. O rapaz que vinha em nossa direção era, como já disse, um tanto esquisito: era loiro, com a fronte sardenta, muito vermelha e macilenta. Tinha olhos esgazeados, azuis e lábios grossos que traziam camadas de saliva ressequida na parte inferior, e acumulada nos cantos. Era de estatura mediana, e arrastava a perna esquerda quando andava, o que lhe atribuía um caminhar desajeitado, porém determinado. Trazia o braço esquerdo dobrado em um ângulo reto colado junto ao corpo, e sua mão e dedos tinham uma aparência grotesca, disforme.

Ele aproximou-se de nós e se apresentou de modo muito formal. Após, pediu auxílio para encontrar alguma prateleira que não me recordo ao certo qual era. Compadeci-me com a humildade do rapaz, e resolvi tirá-lo de perto de Flávio, antes que Flávio tivesse tempo de aprontar alguma coisa. Aquele dia passou e não mais vimos o rapaz, cujo nome era Alcebíades.

No dia seguinte, era uma manhã clara e fria, Alcebíades abordou-me quando eu andava sozinho pelos corredores. Foi andando atrás de mim querendo conversar sobre determinada aula. Não sei porque Alcebíades me provocava um sentimento de humildade e compaixão, o que me impedia de importuná-lo. Tolerei-o naquela manhã e procurei agradá-lo com uma conversa rápida.

À tarde ele tornou a me procurar, propondo que estudássemos juntos. Como nada tinha planejado, e Flávio estava recuperando-se da esbórnia da noite passada, aceitei o convite. Aceitei a companhia dele algumas horas, depois eu disse que ia para o meu quarto. Mas, Alcebíades insistiu em acompanhar-me, e com muito custo consegui dissuadi-lo a deixar-me ir só. Não dei importância ao fato, e fui para o quarto.

Mas, durante a noite, a situação tornou-se calamitosa, e toda a minha compaixão por Alcebíades começava a tornar-se desprezo. Aconteceu que, preparava-me eu para ir ao quarto de Flávio, quando ouvi batidas na porta. Abri. Era Alcebíades. Insistiu que eu fosse jantar com ele, pois queria muito conversar sobre algum estudo que, no momento, eu não estava nenhum pouco interessado. Precisei de muito mais esforço do que durante a tarde para livrar-me dele, mas, com muito custo, consegui.

Não tinha notado de início, mas Alcebíades tinha um ritmo na fala que passou a me irritar. Sem falar na sua insistência pela minha presença constante, uma vez que tínhamos nos conhecido havia um dia apenas.

Comentei com Flávio o fato, em meio a baforadas de ópio. Ele, como sempre, achou tudo muito engraçado e começou a tramar mil formas de Alcebíades abandonar seu interesse por mim, uma mais desprezível que a outra, o que me fazia levá-las em consideração, por mera maldade. Todas as tramas de Flávio implicavam em humilhar Alcebíades de alguma maneira, levando-o a me odiar. Apesar de rir muito com as idéias dele, consegui conter seu ímpeto por piadas mórbidas e disse que lidaria eu mesmo com Alcebíades, pois, não queria que ele criasse antipatia por mim, apesar de tudo.

A minha esperança era que Alcebíades deixasse de me perseguir no dia seguinte. Mas, pelo contrário, suas investidas pela minha atenção somente se intensificaram. E passou praticamente o dia todo me assediando. Começava realmente a odiá-lo. Seu jeito de andar, sua fala enfadonha, seu olhar fixado em mim... tudo me era desprezível, e comecei a levar em consideração as tramas de Flávio.

Naquela noite, não fui ter com Flávio, nem na noite seguinte. E, Alcebíades tornou os dias que precederam tais noites os mais insuportáveis de minha vida. Minhas estratégias para evitá-lo tornavam-se inúteis, de tal sorte que Alcebíades somente me deixava quando retirava-me para dormir. Meu desprezo crescia a cada momento da companhia de Alcebíades. Quanto mais ele me dirigia a palavra, mais enojado eu ficava acerca de sua pessoa. E, mais eu queria ter com Flávio, para que ele me ajudasse a encontrar a solução para o meu problema, mesmo sendo dentro de seus métodos pouco ortodoxos, mas com os quais eu concordava e me divertia.

A predileção de Alcebíades por mim era origem de grande constrangimento, mas, julgava, por algum princípio moral, ter que tratá-lo sem bravatas publicamente. Sentia-me intimidado com sua presença, apesar de reconhecer sua inferioridade em relação a mim, tanto física como intelectualmente. Não surgia nenhuma rivalidade entre nós. Ele parecia me perseguir por motivos misteriosos, inocentes, desconhecidos para mim. Talvez buscasse em minha amizade condescendência e proteção. Talvez por estes últimos traços eu não era levado a odiá-lo completamente. Mas, havia eu decidido que suas perseguições deveriam acabar.

Na próxima noite, depois de mais um dia insuportável com Alcebíades, encontrei com Flávio em seu quarto, já demonstrando sinais de embriagues. Narrei-lhe longamente o ocorrido dos últimos dias, com a maior riqueza de detalhes, tentando expressar a ele os motivos do meu desprezo por Alcebíades, de modo que Flávio compartilhasse dele. De fato, não fora nada difícil, pois Flávio confessou que o odiara desde a primeira vez que o vira na biblioteca.

Ao final de meu relato, Flávio parecia ter tomado minhas dores por completo. E, após execrarmos Alcebíades com palavras, Flávio ficou longos momentos calado, olhando para o nada. Seus olhos brilhavam. Um brilho que eu conhecia bem, e que, de certo modo, me cativava.
Finalmente, saltando da poltrona em que estava sentado, exclamou: “ouça, meu amigo! Eis o que vamos fazer contra este desprezível sujeito! Não sei como a idéia entrou em minha cabeça, mas agora julgo ser ela a mais efetiva e que liquidará teus problemas de uma vez”.

“Diga, pois, Flávio! Como tu tramas livrarmo-nos deste maldito?”.
“É simples, meu caro... mata-lo-emos!!!”
Ri com vontade após esta declaração de Flávio.
“... não falas sério...”.
“Ah, sim!!! Falo sério!!!”.
“Estás embriagado, Flávio! Vá dormir! Amanhã falaremos...”.
“Sei que já fumamos e bebemos demais esta noite, meu caro... mas estou lúcido o suficiente para ter juízo de minhas palavras. Pensas no que te disse esta noite...”.

Ao dizer isto, Flávio pareceu perder o entusiasmo, como que decepcionado com a descrença do seu fiel companheiro de aventuras. Deitou na cama e adormeceu.

Voltei para o meu quarto e também adormeci. Não pensei mais na conversa com Flávio. No dia seguinte, mal acordara e saíra de meu quarto, quando vi Flávio vindo apressado em minha direção. Tomou-me pelo braço, para que andasse ao seu lado. Disse: “Pensaste em nossa conversa?”.

“Por Deus, Flávio, julguei que não falavas sério!”.
“Lembra-te, amigo, quando desejávamos fervorosamente passar por experiências alucinantes e sem par na vida? Eis a nossa oportunidade! Quem dará falta daquele podre-diabo? Notes que não somos os únicos a odiá-lo. Ninguém suporta o sujeito...”.
“...mesmo assim, Flávio. Não é motivo suficientemente forte para que o assassinemos”.
“Reflete sobre isso, amigo!”, concluiu Flávio, largando-me e tomando o rumo da biblioteca.

Tão logo Flávio desapareceu, ninguém menos que Alcebíades surgiu da extremidade oposta do corredor. Vindo em minha direção. A simples visão daquele seu andar desajeitado, mancando, e de seu olhar fixo em mim, alimentava o fogo de meu ódio. Naquele dia, muito me contive para tolerá-lo. Mas, enfim, consegui. Evitei ir ao quarto de Flávio, naquela noite, pois, durante a manhã, tive a prova de que ele realmente tinha a intenção expressa naquela noite de embriagues.

A idéia terrível de Flávio e a incessante perseguição de Alcebíades me provocaram perturbadores sonhos na noite que se seguiu. Meu sono era interrompido por despertares súbitos, sustos terríveis.

Acordei na manhã seguinte muito abalado, e tal abalo provocou-me irritação. E, aumentou minha irritação ainda mais, o fato de deparar-me com Alcebíades postado frente à porta de meu quarto, esperando-me despertar. Por muito custo, não esmurrei-lhe naquele momento, tamanho era a minha ira. Mas, apenas passei por ele sem dizer palavra. O que não o impediu de me perseguir, como fazia sempre. Disse ele: “acordaste tarde esta manhã, a mais de uma hora que te espero...”.
“Não lembro de ter marcado de falarmos”, disse eu secamente.
“Hahahaha... realmente nada marcamos...o que achaste da aula do prof. Alfredo, ontem?”.
“Nada...”.
“Eu a achei muito confusa. O fato de ele não ter aberto para a discussão impediu muitas pessoas de darem a sua contribuição...”, e assim continuou ele, falando de algo que não me interessava nenhum pouco.
Em meio a sua fala, um entusiasmo pareceu percorrer-me a espinha. Um entusiasmo demoníaco. Como que possuído pelo diabo, perguntei a Alcebíades: “o que fará esta noite, Alcebíades?”.
“Nada tenho planejado”.
“Pois bem, passes no meu quarto ao cair da noite, que apresentar-te-ei um amigo que adoraria conhecer-te”.
A alegria estampou-se no rosto de Alcebíades. Disse: “sim! Estarei lá!”.

Durante a manhã e a tarde, devido a minha empolgação com o que iria acontecer, consegui tolerar Alcebíades, e até acho que fui afetuoso em excesso com ele.

Ao cair da noite, tempestuosa e fria, ouvi batidas na porta. Abri e era Alcebíades. Cumprimentei-o com um sorriso de satisfação. Vesti meu casaco e nos dirigimos ao quarto de Flávio. Chegando lá, bati na porta. Flávio abriu. A sua expressão de espanto ao ver-me acompanhado de Alcebíades foi tão cômica que me fez sorrir.

Disse eu: “vamos, Flávio... deixai-nos entrar...”.
Sem entender, Flávio abriu a porta, dando-nos entrada.

De pronto, Alcebíades tratou de buscar um assunto para conversar com Flávio. Não fosse o espanto de meu amigo, ele já o teria vitimado com suas piadas mórbidas. Ignorando a confusão mental de Flávio, servi um copo de rum e estendi-lhe outro. Ele aceitou, ainda confuso. Depois de minutos incessantes de fala de Alcebíades, o quarto caiu no silêncio.

Então, disse eu a Flávio: “aí está ele, Flávio!!! Matemo-lo!!!”. 

 Vi a confusão de meu amigo, naquele momento, ser substituída por terrível e malévola alegria. Ele gargalhou observando o espanto de Alcebíades. De fato, a expressão que o rosto de Flávio assumiu, até a mim assustou. Era como se um demônio tivesse se apossado de seu corpo, e gargalhava alto. Contrariamente a Flávio, Alcebíades assumiu uma expressão de terror e confusão, procurando entender o que se passava. De repente, tomado por um impulso de medo, saltou de seu assento e tentou caminhar em direção à porta. Em um movimento rápido, Flávio abriu uma gaveta e sacou um revólver. Apontou-o para Alcebíades, dizendo: “onde pensas que vai, aleijado?”. Alcebíades parou. Lágrimas brotavam de seus olhos esgazeados. Fui até a porta e tranquei-a.

Flávio disse: “amarra este animal com aquele lençol, depois pensaremos a melhor maneira de matá-lo! Se gritares, aleijado, ou fizeres qualquer ruído, arrebento a tua cabeça com chumbo quente”.

Alcebíades chorava muito, e soluçava. Mas, parecia que quanto maior era o seu desespero, mais aumentava a nossa fúria assassina. Disse Flávio, enquanto eu amarrava Alcebíades: “acaba com a garrafa de rum... a arma está sobre a cômoda... voltarei em alguns minutos...”. Ao dizer isso, Flávio destrancou a porta e saiu do quarto. Mais que a mim, a demora de Flávio agoniou Alcebíades. A garrafa de rum chegara ao fim e meu amigo ainda não voltara. Em minha cabeça passavam-se mil coisas, todas elas acerca de alguém descobrir o que estávamos prestes a fazer.

Depois de passada quase uma hora, Flávio irrompeu eufórico no quarto, segurando uma trouxa comprida e fina, com uma extremidade alargada. Ao entrar, trancou novamente a porta.

Disse: “veja, aleijado, o que te aguarda!!!”. Ao dizer isso, Alcebíades arrancou o pano que cobria o conteúdo da trouxa, e ergueu vitorioso, como se fosse um troféu, um pesado machado de lenhador. Alcebíades se contorceu o máximo que pode, em desespero, impedido de gritar pela mordaça que eu havia providenciado para sua boca. Flávio continuou, dirigindo-se a mim: “segura este animal, meu caro, pois agora racharei o seu crânio pela metade!”.

“Não!”, disse eu, “tu o seguras e eu o mato!”.
Flávio Gargalhou: “hahahaha... como queiras, meu caro!”. Ao dizer isto, ele jogou o machado para mim (era, de fato, muito pesado) e postou-se atrás de Alcebíades, que chorava em desespero, obrigando-o a ficar de pé.

Juntei todas as forças que a embriaguez me permitiu e ergui o machado acima da cabeça e, então, tomado de fúria demoníaca, empreguei força tremenda nos braços e derrubei-o sobre a cabeça de Alcebíades. Enterrei-lhe o machado no crânio, abrindo sua cabeça em duas partes, do topo até a boca. A podre-diabo caiu morto, em meio a gritos abafados pela mordaça. Seus olhos aterrorizados ainda me fitavam, em sua carcaça sem vida.

Realizado o terrível assassínio, larguei o machado no chão, e Flávio soltou o corpo morto de Alcebíades, que caiu desfalecido. Assim como eu, Flávio estava coberto de sangue e resquícios do cérebro que saltaram da cabeça de Alcebíades, na hora do golpe fatal. Flávio dava gritos alegres e saltava no ar, como uma criança. Quanto a mim, não sei ao certo o que sentia.

Passada a euforia, movidos por súbita resolução, discutimos vários planos para livrarmo-nos do corpo. Por fim, julgamos que o melhor seria esquartejá-lo e enterrar os pedaços em um buraco pequeno, nas dependências da universidade. Flávio se encarregou de cortar o corpo de Alcebíades em pedaços com o machado, enquanto eu procuraria uma pá e cavaria uma pequena cova, acobertado pela calada da noite.

Não demorei até encontrar uma pá. Feito isso, andei até a orla do bosque que circundava parte da universidade e comecei a cavar. Quase duas horas se passaram para que acabasse meu serviço. Sentei-me ao lado da pequena cova, estreita e funda, a espera de meu amigo. Não demorou e ele apareceu, vindo sorrateiramente, carregando uma trouxa de pano branco, toda manchada de sangue.

“Demorei porque tive que burlar a guarda”, explicou ele, jogando a trouxa dentro do buraco que eu cavara. Cobrimos a cova com terra, livramo-nos da pá e do machado, e fomos limpar o sangue e a terra de nossos corpos, e queimar nossas roupas, que resguardavam provas de nosso crime. Quando acabamos, já estava quase clareando o dia. Despedi-me de Flávio, jurando segredo eterno (juramento que agora quebro) acerca do que fizemos naquela noite.

Mesmo encontrando-me perturbado com o acontecido, o trabalho braçal me cansara o corpo, e sem muita dificuldade consegui adormecer. Não tive ânimo para comparecer às aulas do dia seguinte e permaneci deitado. Acordei somente a noite, no entanto, sentia-me muito mal e febril, com o corpo dolorido e um ardor intenso nos olhos.

Não saí da cama nem do quarto por três dias. Tremia de frio com os calafrios da febre que me assolara, e dormia um sono profundo. Mais de uma vez ouvi Flávio chamar-me, batendo na porta. Acredito que ele não tenha buscado ajuda, pelo simples fato de relacionar meu subido enclausuramento com o acontecido de nosso último encontro.

Parecia que a minha febre aumentava a cada dia. Meu corpo já parecia perder os sentidos e julguei que a morte maldita me perseguia, triunfante, provando-me que ninguém eu era frente ao seu poderoso arbítrio. Os delírios de febre que me assolaram foram os mais terríveis, e todos eram voltados à figura de Alcebíades. Eu vomitava muito em náuseas intermináveis, minhas mãos e pernas tremiam sem parar.

No quarto dia parece que a terrível enfermidade que me abalara começava a se afastar, e, com algum custo, consegui levantar da cama e me alimentar. Meu corpo estava estranho, como que amortecido, mal conseguia arrastar os pés para me movimentar. A perna esquerda parecia quase dormente por completo, assim como meu braço esquerdo e os músculos do meu pescoço. No entanto, a febre passara e também a náusea. Já me sentia forte o suficiente para ir até o quarto de meu amigo e tranqüilizá-lo a respeito de minha situação.

Vesti-me e me arrastei pelos corredores até o quarto de Flávio. Por sorte, as pessoas não por quem passava não me olhavam com estranheza, apesar de meu péssimo estado. Julguei necessário fazer alguns exercícios físicos, após a visita a Flávio, para recuperar a disposição e livrar-me daquela dormência incomoda.

Bati na porta e, sem demora ouvi meu amigo se aproximar. Ele destrancou a porta e a abriu. Qual não foi minha surpresa, quando Flávio deu um grito de terror ao deparar-se comigo, caindo ao chão estupefato, com os olhos estalados! Gritou ele: demônio! Diabo! Deixa-me em paz! Volta para o inferno!”. Sem palavras fiquei ante aquela reação inexplicável de meu amigo.

Ainda não tinha eu me recuperado do susto, quando ele levantou-se de chofre e saltou para a gaveta da cômoda, tomando de sua arma e a apontando para mim. Gritei: “acalma-te, Flávio! Sou eu! Teu amigo...!”. Minha voz saiu estranha, rouca e fanhosa. Questionava-me se Flávio não havia caído na loucura.

Flávio continuava apontando a arma em minha direção, com a mão trêmula e com uma terrível expressão de espanto estampada na face. Devido ao meu espanto, nem eu nem ele dizíamos palavra. Apenas encarávamo-nos.

De repente, depois de alguns minutos que pareceram milênios, em um movimento rápido, Flávio fez algo inesperado. Apontou a arma para a própria cabeça e, antes que eu pudesse impedi-lo, disparou...

Caí em pranto, sem saber o que fazer, muito menos entendi o que ocorrera com meu amigo para cometer tal ato. Refleti alguns minutos, e julguei ser melhor procurar ajuda. Levantei-me da cama, onde sentara, e dirigi-me à porta. Senti uma dificuldade imensa de levantar. O que mais me aterrorizou, foi o fato de que, quando procurei caminhar, minha perna esquerda não obedeceu. Olhando para meu corpo, vi que meu braço esquerdo estava colado ao corpo, com uma mão disforme em sua extremidade. Não podia ser! Era impossível!

Tomado de medo e horror, arrastei-me até o espelho pregado na parede. Ao deparar-me com meu próprio reflexo, um terror sem igual substituiu todos os sentimentos maléficos que já sentira na vida. Meu coração parecia querer arrebentar o peito! Porque ali, parado, olhando a própria imagem no espelho, não estava mais aquele que eu fui, mas, sim, um sujeito loiro, de rosto oleoso e sardento, com finas camadas de saliva ressequida no lábio inferior e nos cantos da boca, de olhos azuis e esgazeados. A figura com que se me afigurava, em minha própria imagem era, juro por Deus, a de Alcebíades!

Era como se ele tivesse voltado da morte! E, parecia me dizer, naquela imagem refletida: “achas que venceste? Mas, perdeste... e comigo descente ao inferno! Quando eu morri, eu permaneci contigo, e fiz do teu ódio o teu algoz! Te tornaste o que tanto desprezava!”.