Alimento Ausente

por Agnes Myrra

 

Olhava aquele rosto pálido com ansiedade. Como podia fazer isso? As amarras nos pulsos faziam a pele lacerada sangrar. E nos lábios um sorriso suspenso, irônico. Maldito! Um dia se passou e nenhuma palavra. A escuridão daqueles olhos congelava minha alma insana. E eu queria essa escuridão em mim. Mas como faria isso? Precisava saber como ele sentia-se, sua ótica enquanto escrevia. Só ele poderia me dizer isso. Confiava em mim, em minha loucura, que dizia ser ensaiada. Era meu amigo, e nosso contato era intenso. Eu quase lia seus pensamentos. Quase. Exceto o que sentia ao escrever. O que se tornou minha obsessão.

Ao fim desse longo dia uma faísca de arrependimento tomou conta de mim. Mas não podia voltar atrás, era tarde. E não sabia o que ia acontecer com nossa amizade. Aproveitando a ausência dos meus pais, eu o amarrei no sótão, enquanto ele dormia. Acordando achou que se tratava de uma brincadeira, devido à minha personalidade por vezes pueril. Vê-lo agora ali amarrado, indefeso, fazia-me sentir uma criminosa. Nos primeiros instantes deixei claro minha intenção. Ele demonstrou certo espanto, mas isso não durou mais que cinco minutos.E nada disse. Mostrei um canivete, cortei minha mão e lambi o sangue. Queria saber como ele se sentia. Precisava extrair essa informação. Agora, porém, não me sentia dominando a situação.Deveria parar.Mas não o fiz. E ele permanecia inerte. Mas seu silêncio era mais aterrador que qualquer arrependimento. O olhar indecifrável, a indiferença, a palidez. O silêncio dele estava me matando.

Ele nem ao menos se alimentou, ou dormiu. Se o fez, foi nos instantes em que me ausentei. E seus olhos ganhavam um brilho negro cada vez mais intenso. E sua pele a brancura fantasmagórica que agora incomodava meus olhos.

Alfredo. Esse era o nome dele. E provavelmente ia me odiar depois disso. Meu melhor amigo, talvez o único que realmente me entende.Mas agora não posso recuar, preciso extrair dele a resposta Vou tentar conversar com ele novamente. Cheguei bem perto, ele amarrado à cama, os pulsos feridos, o rosto agora sem expressão.

_Fale, facilite as coisas. É tão simples!_ O olhar dele agora mudou, e sua boca preparava-se para falar.

_ Sofia, você é completamente louca. Sabia e convivia com sua natural excentricidade. Mas me prender aqui já superou qualquer exagero. _ A voz firme me causo certo desconforto.

_ Você está piorando a sua situação. Por que não responde então? O que você sente quando escreve? Descreva esse instante, diga-me o que usa em seus textos para causar reações adversas nas pessoas? Como faz isso? Diga! É só isso que quero saber. Depois te solto e tudo volta ao normal, eu prometo!

_ Não há o que responder. Você me conhece, não seja ridícula. Eu escrevo o que gosto, o que penso, apenas isso. E flui espontaneamente Não faz sentido algum o que você está querendo de mim. Não há nada sobrenatural. Nada. Apenas criatividade. Só isso!

_ Não, nada disso. Vai-me dizer que é normal a reação que as pessoas tem quando lêm o que escreve? Não é mesmo! Elas ficam hipnotizadas, suspirantes, algumas dizem que até deliram! E com os meus textos isso nunca acontece. Eu não comovo ou enlouqueço ninguém. Já você...

_ Eu gosto dos seus. Sempre te digo isso. Você tá cansada de saber. Talvez seja o estilo, ou o tipo de leitor. Há pessoas mais sensíveis que outras. Sei lá, uma porção de fatores. Mas isso não torna os seus textos ruins, superficiais. Você mesma ama tudo que escreve, não é?

_ Sim, é verdade. Mas quero mais. Quero que sintam como os seus. E você só sai daqui quando me disser o que faz.

_ Sofia... Você realmente não está bem. Isso é loucura, não vê? Solte-me, vamos conversar lá fora, viajar, ou simplesmente caminhar na praia.

_ Só depois que você me disser o que quero saber.

_ Não há segredo, elemento, mágica... Não há nada. Já te disse Agora, me solta, por favor. Isso já foi longe demais. Preciso sair daqui.

Permaneci olhando para ele. Por alguns instantes tive vontade de solta-lo. Por alguns instantes apenas.

_ Mas não vai. Vou ser boazinha. Trarei Rufus para cá, assim se sentirá em casa.Aquela bola peluda vai adorar ser cuidada por mim, vendo seu dono amarrado aí. Gosto tanto dos olhos daquele gato, talvez eu os tome para mim.

_ Sofia, não. Rufus não. Não toque nele.

Eu ri do desespero de Alfredo. O gato era o ponto fraco dele. E eu o usaria para arrancar dele a resposta que tanto ansiava.  

_Você enlouqueceu, definitivamente. Isso já foi longe de mais, não vê o absurdo que está fazendo? Sou seu amigo, e é isso que faz? Amarrado aqui desde ontem... E pior: sem razão!Se me soltar agora deixo isso pra lá. Mas se mantiver, vou querer te ver atrás das grades... Ou num manicômio! 

_ Ai, que medo de você! Diga o que quero saber, aí sim poderá ir embora, para sempre até se desejar. Quero sua inspiração, apenas isso. Vamos, diga! 

_ Sofia... _ Os olhos de Alfredo e sua expressão era de desolamento. Cansaço. Raiva também. Percebi seus lábios trêmulos, a respiração ofegante. Estava fraco. Vulnerável. E preso.  

_ Sofia o quê? Vai querer que eu saiba postumamente o que faz? Vai? Seja prático, diga logo. Sabe, estou sendo muito boa pra você, eu poderia ter batido várias vezes, sabia? Cortado sua pele, seus dedos... Um pedaçinho da orelha, não é assim que muitos fazem? 

Alfredo não mais me olhava. Rejeitava meu pedido, e até minha imagem. Minha obsessão só crescia. Cheguei bem próximo ao seu ouvido e sussurrando falei: 

_ Vou buscar seu gatinho... 

Ele não disse nada, nem ao menos olhou pra mim. Permaneceu inerte. Eu saí dali e fui em busca de Rufus, o que seria fácil demais. Tinha livre acesso à casa de Alfredo, sua família estava acostumada ausências constantes, horas, dias, semanas até, e eles não se importavam. Traria o felino sem levantar suspeitas sobre o que estava fazendo. E fiz. O gato era enorme e peludo. Olhos cinzentos assustadores. E arranhava. Ração o atrairia. E um pouco de sonífero o tornaria dócil. Criatura nojenta e peluda! Te peguei afinal. 

Alberto abriu os olhos e deparou-se comigo e em meus braços seu animalzinho. Dormia quieto. Parecia um bebê. Viu na minha mão o canivete. E em meus olhos que eu seria capaz de qualquer coisa. Acariciava o gato agora com o canivete. Devagar. Os olhos de Alberto ficavam ainda mais profundos com lágrimas.  

_ Vai dizer, ou não? Olha que lindo seu gatinho aqui. Imagina ele sem os olhos?  

Ele continuava calado. E eu decidida a torturá-lo através de Rufus. Ouvi sua respiração, ou um suspiro. Ele me olha, um olhar firme, seguro e fala: 

_ Nunca vai saber... Nunca! E vai se dar mal, muito mal. Acha que não vão chegar até aqui? Mais cedo ou mais tarde virão me procurar, e seus pais voltarão. Você tá encrencada, garota! E vai pagar por isso.  
_ Será? Bom, nunca arranquei olhos de gato antes, é hora de começar! Preparado pra ver?  

Alfredo novamente rejeita minha imagem. Mas vai sentir o gostinho nos lábios do sangue do seu animalzinho.

 

FIM

(Inspirado nos geniais Giorgio Cappelli e Alessandro Reiffer)