Loura Suicida
por Agnes Myrra
_ De novo, filho?
_ Sim, mãe, esses pesadelos estão me matando...
Mais uma noite mal dormida. As olheiras nem me surpreende mais. Pesadelo recorrente. Eu durmo, mas não o bastante. Aboli a cafeína, as massas à noite, adaptei meu quarto para boas noites de sono, mas ao invés disso só ganho pesadelos. Isto está me matando. Os pesadelos. Não agüento mais!
Hoje vou tentar algo diferente: tentar relaxar e ver até onde o sonho vai, se revela algo.
_Boa noite, filho.
_ Eu espero que seja boa mesmo.
Deitei e fiquei olhando o teto. A noite silenciosa me deixou melancólico. Lembro das doces épocas onde dormia e tinha bons sonhos. Tempos que não voltam mais. Uma hora. Duas. Três da madrugada. Sinto os primeiros lampejos de sono. Vou mergulhar em mais um pesadelo. Mas dessa vez será diferente.
"Um campo verde. Vasto. Um tapete. Muitas pessoas me olhando. O céu em minha cabeça num dia de sol. Eu sou um noivo? As pessoas começam a abrir caminho, alguém se aproxima.Parecia o mar vermelho abrindo-se. A noiva. Ela vem. Seu vestido branco está... ensangüentado ?Ou seria apenas vinho tinto? Não vejo seu rosto, mas ela segura algo mais além do buquê. Ela parece levitar sobre o gramado. Sinto o vento frio na minha nuca. As flores em sua mão estão sangrando... Quero ver seu rosto, mas não consigo me mover. Os rostos dos convidados agora estão distorcidos. Ela deixa o buquê cair em meio a uma poça de sangue. Seus pulsos estão cortados... "
_ Eu quase vi o rosto dela...
Levantei e caí no chuveiro. Não conseguiria adormecer novamente. O dia seria longo e eu já me sentia exausto. O dia seria uma droga, como de costume. Eu vou ao trabalho, depois à aula e por fim volto pra casa para ter meus 'doces sonhos'. Uma rotina macabra que está me matando.
A hora do martírio: vou dormir. Tentar relaxar. Tentar.
"...ela joga o buquê em meio à poça de sangue. Ela atira na boca coberta pelo véu ensangüentado..."
_ Droga! O rosto... Mas pelo menos um novo fato ocorreu. Agora é apenas um pesadelo, espero não ser recorrente!
"... ela joga o buquê em meio à poça de sangue, e caí em cima, aparentemente envenenada, uma 'espuma' sai de sua boca. Não consigo me mover. Não vejo seu rosto, mas seus cabelos são louros..."
_ A garota suicida. Cabelos louros. O que quer me dizer esses sonhos? Um novo suicídio... Preciso descobrir como isso vai terminar. Será que ela existe? Tenho que evitar isso?
Ele esperava ansioso o momento de dormir e sonhar. A garota loura. Suicida. Sua nova obsessão.
"... ela joga o buquê em meio à poça de sangue, ajoelha-se, ergue o pescoço e eu vejo u canivete em sua mão. Não consigo me mover. Mas tento falar.
_Por favor, não faça isso!
A garota pára. Levanta o véu e finalmente vejo seu rosto.
_ Consegui! E ela não se matou! E vi seu rosto finalmente. Ela tem algo a me dizer. Preciso saber o que é.
"... levanta o véu e me olha. Seu rosto era sereno. Olhos brilhantes. Olhos de amor.
_Leve-me com você..."
Acordei num sobressalto. O rosto encharcado de suor. Barulho de carros na rua, luzes entrando pela janela. Tomei um banho, tentei voltar a dormir, mas foi em vão. Não consegui esquecer aqueles olhos. A voz. Não sei como, mas trarei a loura suicida para mim.
O dia foi longo, enfadonho. Às vezes eu cochilava e me deparava com o rosto dela, envolto em sangue. Flashes apenas. Ansioso eu aguardava a noite para encontrá-la.
"... _Leve-me com você..."
_Como posso fazer isso? Diga-me como e eu farei?
Enquanto tentava tocá-la, acordei. Estava agora desesperado. Como faria o que ela me pediu? Como?
Há muito tempo não chorava, mas agora não consigo me conter. Angustiado, fui levado pelo dia, e à noite dormi e não sonhei. Estranhamente acordei-me sentindo-me bem. Talvez fosse melhor mesmo não sonhar. Mas senti falta. Ela não saía de minha cabeça. E já não sonhara há três dias. Minha obsessão me consumia. Antes era torturante dormir, agora eu precisava disso. Dormir e sonhar com ela.
Uma semana. Duas. Um mês. Sem sonhos. Sem ela. Nem sentia vontade de sair de casa. Isolar-me era como um consolo inútil. As noites eram horripilantes, frias, terrivelmente solitárias. Não tinha mais sonhos. Nem dormindo, nem tampouco acordado. Ela levou tudo. Minha alma, minha vida. Eu que não bebia, agora deliro com os efeitos do álcool. Todas as noites são iguais, mas meu descontentamento aumenta com os dias.
Alguns quilos mais magro e já despertando o pânico de minha mãe, resolvi sair do casulo. Encontrar os amigos, voltar à vida. Uma noite eu cheguei em casa muito tarde, já passava das três. Mas não estava bêbado, apenas cansado. Queria dormir e nem pensava mais nos sonhos, ou em sonhar. Fui direto pro quarto, larguei o tênis nos corredores. A noite estava fria, as janelas abertas, precisava fechá-las ou congelaria. Tirei a blusa e a calça, pus um velho pijama e meias e caí na cama. Por alguns segundos a loura suicida invadiu minhas lembranças e meu desejo. De repente senti um perfume extremamente agradável. Levantei e por alguns instantes achei que poderia ser minha mãe. Mas ela estava dormindo. Levantei-me e saindo do quarto percebi que o tal aroma estava restrito. Voltei e me deparei com a garota. Era ela, os olhos, os cabelos. Sentada na minha cama, com o mesmo vestido de noiva ensangüentado. Seu olhar era magnético, penetrante. Senti uma paz nunca sentida antes. Não conseguia proferir nenhuma palavra. E não era necessário. Sabia o que ela queria. O que estava pensando. E sabia também o que fazer para tê-la. Aproximei -me dela e após beijá-la, fitei seus olhos e vi que agora ela transformara-se numa neblina dourada. A nuvem brilhante ficou suspensa no teto do meu quarto por segundos, o aroma em todo o quarto, a sensação de plenitude que tomava conta de mim antecedia meu melhor momento. Abri a janela, sentindo a neblina transfixar meu corpo. Ela se foi pela janela, e o meu corpo foi atrás.
FIM
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