Silvia de Monrabeth

por Rogério Silvério de Farias

 

As névoas encantadas dos sonhos levaram minha alma solitária por bosques sombrios, por sobre penedos de colinas sinistras, cobertas de musgos putrefatos e flores fétidas e mortas, além, muito além das Terras Lendárias, regiões que somente aos heróis, loucos e poetas é concedida pelos deuses primevos a entrada.

Minha alma solitária virou como que uma pluma levada pelos ventos oníricos, e naquela fria noite de inverno, no velho apartamento da cidadezinha do Sul, aos poucos ia ficando para trás todo tédio, monotonia e tristeza de um mundo onde, na vigília, eu vegetava entre sofrimentos, mediocridades, tristezas e ramerrões sem sentido ou lógica alguma.

Lá, nas Terras Lendárias, eu não era mais eu, mas sim o jovem guerreiro de cabelos loiros e encaracolados, Thorlantarac, cujos olhos era mais azuis que todos os céus de verão ou primavera da eternidade. E, nômade como o vento, Thorlantarac cavalgava e trotava livre por desertos e florestas misteriosas. E além de guerreiro e caçador de bruxos e demônios da noite que infestavam as Terras Lendárias, era poeta e cantava antigas baladas que falavam de amores perdidos.

Seu nome era respeitado em Ukrith, a cidade das opalas resplandescentes, em Sharnibar, a cidade das papoulas rubras, e Cintradismônia, a cidade dos bravos, reinos além das lúgubres montanhas de Sassandriminir, entre Tukrith e Berbeltrinía.

Thorlantarac, o guerreiro, empunhava como arma sua alabarda, cuja lâmina fora forjada nas chamas de sua terra natal, a sombria Elenkótria, situada nas regiões dos pântanos pútridos e fumegantes de Yurm Ahul Kondraath. Thorlantarac tornara-se uma lenda viva com sua alabarda de lâmina cintilante. Por muitas terras ele vagou, antes de encontrar a bela Silvia de Monrabeth, que o encantou com sua flauta mirífica. Silvia, não da raça dos guerreiros, mas da raça antiga das dríades e ninfas metamorfoseantes do bosque de árvores altas de Saartrinberg.

Por sete noites ele amou a bela Silvia de Monrabeth. Amou a música da flauta mágica de Silvia. Amou Monrabeth, a cidade em ruínas na clareira do bosque, maravilha ímpar e antiga das Terras Lendárias. E ele beijou a dríade de Monrabeth sob a lua antiga das Terras Lendárias. E ele a carregou em seu colo, nua, e depois galopou com ela sobre pradarias nas manhãs de primavera, no lombo de um unicórnio azul e manso.

Certa noite, quando Silvia de Monrabeth buscou entre as ruínas da cidade o cristal de Untropary, o deus do amor que concedia a seus devotos o prazer místico das almas gêmeas, uma víbora verde, saída das sombras dos destroços de um altar, picou-a no calcanhar, causando na bela Silvia a cegueira eterna e a loucura perpétua.

Quando Thorlantarac soube do ocorrido, chorou por vinte noites consecutivas, pois a amada agora era como um espectro vivo nas ruínas de Monrabeth, tocando com sua flauta uma outra música, a música triste da loucura e da escuridão do Inferno.

Desde então Thorlantarac foi desprezado por Silvia, que não o reconhecia mais, afundada na cegueira e loucura.

Quase enlouquecendo também, Thorlantarac foi embora numa tarde chuvosa. O céu chorava com Thorlantarac.

Thorlantarac foi embora antes de acordar e voltar a ser este que vos escreve estas linhas. Não sem antes beijar os lábios gélidos da amada, que completamente louca e cega, tornou-se um espectro vivo entre as ruínas grotescas de Monrabeth, a esquecida. Mais tarde, Silvia dos olhos verdes e da flauta louca morreria horrivelmente, afundada nas areias movediças dos pântanos adjacentes de Monrabeth, a cidade esquecida e em ruínas das feéricas Terras Lendárias, que só são acessíveis àqueles que dormem e sonham com mundos mágicos.

 

FIM