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O AbutrePor Andrios S. Moreira Certa vez, caminhando na estrada, Fitando o escuro horizonte, Achei uma pena abandonada, Preta como a roupa dum monge. De que ave é essa pena? Tal pergunta veio à fronte; Do escuro horizonte se apresenta, Um pássaro vindo de longe. Fiquei surpreso, confesso, Quando a ave, robusta, pousou na ponte, Que no meu caminho ingresso, Bem à frente, bem de fronte. Com a pena em minha mão, Caminhei na direção da ave; Constatei, com olhos então, Que a pena lhe confiasse. Como se soubesse, ao me fitar; Começou a crocitar, Com as asas azucrinar, As folhas secas com o ar. Perguntei então ao pássaro, Como se fosse entender, Perdeu-se a pena ao acaso, Naquele escuro entardecer. Meu espanto foi imenso, Quando com a voz num tormento, Sacudiu a cabeça ao vento E falou com gracejar lento. Essa pena eu descartei; Trazia-me lembranças tristes; De fatalidades que passei E de tu ouvir, desistes. Respondi, conta-me o que te aflige, Que se puder te ajudarei, Fatalidade, a todos atinge, E a minha te contarei. Não imaginas que tristeza fico, Quando descubro algo ruim, De montanhas, procuro o pico, E solitário fico até o fim. Descobri, pois esses dias, Que amor nunca existiu; Só existe aparências frias, Que nossa alma infligiu. Esta pena representava, Os afetos da amada; Até que um dia, na invernada, Mostrou-se então apagada. Voou para longe, perturbada, Tal figura desalmada; Minha vida encravada, Na sua carne abalada. Nunca consegui o que quis, Por mais esforço que fizesse; Sempre me escapou por um triz, E na desilusão me pusesse. Desiludi a todos então, Os que me acompanhavam; Descobri depois aos choros, Só minhas vitórias desejavam. Com o tempo então passando, Foi-se a pena se esfacelando; Até que nesse entardecer brando, Em tuas mãos foi parando. Agora procuro, solitário, Ficar longe, de soslaio; Não quero mais mostruário, De amor imaginário. Tal sentimento não existe, Digo mais, nunca existiu; Se procuras então desistes, Que verdade nunca se viu. Minha vida foi sombria, Tal qual esse horizonte; Meu passado, uma agonia, Encarei a dor de fronte. Recomendo-te agora amigo, Não fiques aqui comigo; Como carne do jazigo, Mal te fará se comer aquilo. Ao ouvir a estória triste, Do pássaro em minha frente; Aproximei-me com deslize, Pra descobrir a espécie dele. Ao ver a cabeça despenada, Que ainda me fitava, Respondi na mesma fala: Da rapina a ave herdava! Não é necessário aproximar-te, Disse a ave a grasnar; Vou agora apresentar-me, Sou um abutre a praguejar. O que sabe da vida, Uma ave de rapina; Respondi que era sina, Que ser agourento tira. Como se fosse um profeta, Respondeu com sabedoria; Até tu me obsoleta, Isso é muita covardia. Conhece-me a pouco tempo, Porque então me condena? Só porque de onde venho, Há culinária agourenta? Sei que sozinho também estás, Procurando algo, assim como eu; Futuramente estarás, Pensando como um ateu. Ao dizer isso, alçou vôo, E voou para o horizonte; Desaparecendo no escuro morro, Que ficava lá bem longe. Fiquei ali por mais tempo, Se toda noite, não lembro mais; Do abutre e do vento, Eu não esqueço jamais. Daquele dia, doravante, Solitário passei a viver; Solitário, porém avante, Tentando o amor entender. Concluindo meu pensamento, Ó Abutre, estás tão certo! O amor é um invento, De sonhadores tão perto. Na verdade não existe, Esse amor que todos dizem O Abutre que era triste, Continua a viver sem. O Abutre era um profeta, Que a verdade ensinou; Saiu de negra atmosfera, E o conhecimento assimilou. Não acredito no amor agora, A realidade comigo ficou; Na verdade amor é lenda, E abutre agora sou.
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